Pedro, 74 anos, 85 mil quilômetros de bicicleta

Quando completou 70 anos, Pedro Marcon Neto resolveu comemorar seu aniversário em Cuba. Até aí, nada de diferente, se não fosse o fato de passar os mais de 20 dias viajando de bicicleta pela ilha.

A paixão pelo pedal, que o levou a conhecer boa parte do Brasil e da América Latina, começou apenas aos 52 anos, quando comprou a primeira bike, uma sundown. A aquisição foi motivada por um amor mais antigo, a estrada. O primeiro trabalho como motorista veio logo que tirou sua habilitação, aos 18 anos. Desde lá, só largou a direção ao se aposentar, por tempo de serviço.

Aos 74 anos, o gaúcho acumula mais de 85 mil quilômetros nas duas rodas. “Meu avô, por parte de pai, teve 30 filhos. Tenho muitos parentes bem sucedidos, que são médicos, generais. Eu optei por outro caminho, em viver e aproveita a vida. Não me arrependo nem um pouco”, revela Pedro.

As primeiras viagens

Gaúcho, de Santiago, Pedro morava em Porto Alegre quando começou a pedalar pelos bairros e municípios próximos à capital. Logo, passou a subir a serra e conhecer cidades como Três Coroas e Cambará do Sul. De Porto Alegre, chegou a pedalar 1046 quilômetros, saindo de sua casa, com um amigo, passando por Cachoeira do Sul, Caçapava do Sul e Bagé. Depois, retornou por Piratini, Rio Grande e Pelotas.

Em estradas internacionais, fez sua primeira viagem entre o Chuí e Montevidéo. “Saímos entre quatro pessoas e fomos direto para um camping. Chovia muito naquela noite, aí um queria cozinhar mas não tinha panela, o outro não queria emprestar, o pessoal já brigou na primeira noite. No fim, fiz a maior parte do trajeto e terminei sozinho. Mas cheguei”, afirma.

Pedro explica que tenta planejar minimamente as viagens e não busca muito conforto. Consulta distâncias em um mapa e busca saber quais cidades estão no caminho. “Mas é quando chego lá que vejo onde vou dormir. Geralmente busco um camping ou um lugar baratinho. Mas onde der eu acampo, já dormi até em cemitério”.

A maior jornada

De Natal até Salvador, foram 1305 quilômetros, seguindo o mais próximo possível pela costa do oceano Atlântico. O trajeto foi feito em companhia de um amigo de mesma idade, já falecido, o médico Lucas.

Entre travessias de barco e jangada e passagens pelas praias de Pipa, do Seixas, dos Carneiros, da Barra de Camaratuba e São Miguel, de grandes cidades como Recife e Maceió e menores, como Piçabuçu, duas outras passagens marcaram a viagem. “Além de ir visitar meu filho, que ainda mora em Natal, foi a primeira vez que andei de avião. Vim grudado na janela”, recorda.

E quando se fala em praia, Pedro não tem como não lembrar de outra travessia, essa um pouco mais de 500 quilômetros, entre Vitória e o Rio de Janeiro. “Pra terminar, queria subir o Morro do Corcovado de bicicleta. Logo que chegamos no Rio, estava andando com a bike na beira da lagoa Rodrigo de Freitas e conheci outro ciclista, morador de lá. Comentei da minha vontade. No outro dia, nos metemos na Floresta da Tijuca e subimos. Cheguei lá em cima pedalando”, conta Pedro, orgulhoso.

Pela Cordilheira dos Andes

Pedro não tem dúvidas quanto ao percurso mais bonito que fez: um pedal entre Bariloche, na Argentina, passando pelos lagos patagônicos e terminando em Valdívia, no Chile. Além do frio de -4º e os ratos que comeram parte de sua barraca em um acampamento mapuche, acabou tendo que lidar com outros obstáculos.

Nenhum dos outros dois amigos que haviam planejado fazer o trajeto desembarcaram na Argentina. Um deles sumiu no dia anterior à viagem e o outro passou mal dentro do avião, ainda em Porto Alegre. Pedro foi mesmo assim e desceu horas mais tarde, em Bariloche.

No dia seguinte, o amigo que passou mal apareceu. Fizeram parte do trajetos juntos, mas não conseguiram se entender. “Tentaram melar minha viagem e não conseguiram. Sou, acima de tudo, independente”.

Pela Argentina, Pedro ainda fez outra travessia, saindo de Santa Fé e indo até Buenos Aires, sempre costeando o Rio Paraná. “Queríamos mesmo começar na cidade de Paraná, onde tem um túnel que cruza por baixo do rio. Mas não deixam passar de bicicleta”.

Os 70 anos em Cuba

“Cuba é um lugar muito bom. Não tem ladrão lá. A comida é barata, o povo educado”, analisa Pedro. Foram pouco mais de 20 dias pedalando pela ilha, de uma cidade para outra, junto com um amigo Lucas.

A viagem começou em uma cidade chamada Santiago, 500 quilômetros distante de Havana, do outro lado da ilha, e seguiu pela Sierra Maestra, em direção de Pilón e Varadero. “Em Cuba, tivemos que nos planejar um pouco mais os lugares onde dormir. Ficamos sempre em casa de família”, lembra.

O próximo percurso

Morador de Porto Alegre, Pedro se mantém em forma, com pedaladas semanais ou quinzenais de cerca de 100km, até os municípios vizinhos de Barra do Ribeiro e o balneário de Itapuã. O próximo trajeto já está marcado – pelo menos no mapa. Serão 380 quilômetros de Horizontina, onde mora a irmã, até as Cataratas do Iguaçu, no Paraná.

Pedro ainda tem muita estrada pela frente.

Henrique Lammel

Jornalista e produtor de conteúdo

Um comentário em “Pedro, 74 anos, 85 mil quilômetros de bicicleta

  • junho 9, 2018 em 7:17 pm
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    Tenho muitas viagens, longas médias e pequenas, e muita histórias para contar, que quiser ouvir é só me procurar!

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