Torres del Paine (CHL): o guia dos circuitos W e O

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Visão do Glaciar Grey logo após deixar o camping Passo

Localizado no sul do Chile, na cidade de Puerto Natales, o parque de Torres del Paine é considerado um dos mais bonitos do mundo. Os dois circuitos mais famosos são o W e o O, este último também chamado de Macizo Paine.

O circuito W é percorrido entre quatro e seis dias e passa pelas três atrações mais populares do parque: o Glaciar Grey, o Vale Britânico e o Mirador Torres. Tem esse nome por seu percurso ser similar a letra W do alfabeto. Já o circuito O é circular e dá a volta pelo Macizo de Paine Grande. São necessários, no mínimo, oito dias para completá-lo. Ele incluiu o circuito W mais locais como a laguna e refúgio Dickson, o glaciar Los Perros e o passo John Garner.

Se você pretende passar um ou dois dias no parque ou saber informações genéricas sobre Puerto Natales (como chegar, onde dormir), clique aqui

Mapa de Torres del Paine

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Em azul: circuito W
Em vermelho: circuito O, que incluiu o circuito W, em azul
Em verde: trecho entre a portaria Laguna Amarga e o camping Las Torres, que pode ser feito de van
Em amarelo: onde você pode começar os circuitos
Em preto: trecho que pode ser feito de catamarã

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Quando ir

O parque Torres del Paine tem duas temporadas. Na alta, de outubro a abril, ambos os circuitos podem ser percorridos sem a necessidade de guia. Apenas é necessário preencher uma ficha ao entrar no parque e fazer a reserva antecipada de todos os campings. Claro, você precisa de alguns equipamentos básicos, como um saco de dormir com conforto de, pelo menos, e roupas para o frio impermeáveis. Porém, pode caminhar pelo parque e acampar forma autônoma.

Na baixa temporada, de maio a setembro, é obrigatória a contratação de um guia credenciado pelo parque. Também é preciso formar um grupo de mínimo três pessoas e ter equipamentos como um rádio por satélite. E prepare-se para muita neve e frio, até mesmo ser impedido de entrar na trilha em razão das condições climáticas. Consulte o que é requisitado.

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Reservas

São duas empresas que administram os campings – Fantastic Sur e Vertice – além de dois campings gratuitos da Conaf, órgão do governo chileno que cuida dos parques e reservas do País. Reservar é bem complicado atualmente, porém a tendência é que o sistema seja aperfeiçoado. Só podem ser feitas reservas para o período da alta temporada, pois a maioria dos refúgios fica fechado na baixa temporada.

É necessário fazer um planejamento antecipado de onde vai passar cada noite, definir datas, identificar quem administra cada camping e acessar os sites de cada uma das empresas para realizar a reserva (da Conaf é feita no site oficial do parque Torres del Paine). No site do parque, é possível planificar seu circuito, o que auxilia muito na hora de fazer as reservas.

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A procura nos meses de janeiro e fevereiro é alta, por isso, se vai nesse período, reserve com o máximo de antecedência. As reservas costumam abrir em outubro. É preciso ter em mente que o roteiro dos circuitos não é fechado e você pode adaptá-lo de acordo com seu estado físico e tempo disponível. Minha ideia era fazer o circuito O sem pressa, com caminhadas de seis horas em média, para aproveitar bem as paisagens. Com isso, levei dez dias para percorrer todo circuito. Mas você pode fazer em oito.

Quando fiz o circuito, em abril de 2016/2017, eram três campings gratuitos da Conaf. Um deles, o camping Torres, foi fechado na termporada 2017/2018. Ele ficava localizado a menos de 40 minutos do mirador das Torres e muita gente despertava de madrugada, ainda noite, para ver os primeiros raios de sol baterem nos montes.

Com isso, o camping mais próximo do mirador é o Torres Central, que fica a mais de três horas do mirador. O Chileno fica a 1 hora e meia, porém não oferece área para você colocar sua barraca (precisa alugar a deles) e não pode utilizar fogareiro em nenhum local.

Em abril de 2017, apenas pediram a reserva nos campings gratuitos no momento de avançar para camping Los Perros. Falei com muita gente que fez o circuito W sem reserva alguma. Mas eu não recomendo arriscar.

Onde começar

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Se sua ideia é fazer o circuito W, pode começar tanto do camping Paine Grande (acesso pela portaria Central, segunda parada do ônibus que sai da rodoviária de Puerto Natales) quanto do camping Central (portaria Laguna Amarga). Isso porque não há restrições quanto a direção: você pode caminhar tanto em sentido horário quanto anti-horário nessa parte do parque.

O circuito O só pode ser feito em sentido horário, pois a passagem entre o camping Passo e o camping Seron é probida no sentido inverso. Onde começar, depende somente de você. A maioria das pessoas que fazem o circuito O evitam iniciar (e consequentemente, terminar) o trekking por Paine Grande, por ser obrigatório, na alta temporada, tomar o catamarã, cujo custo é alto (12.000 CHL ou R$ 60 por trecho).

É proibido fazer fogo dentro do parque e o uso de fogareiros é restrito a uma área específica nos campings, e somente pode ser utilizado aqueles que usam gás. Fumar tabém só é permitido nesses locais, com penas de multa e expulsão imediatas do parque.

Onde comprar e o que levar de comida

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Como eu estava por economizar, acabei comprando toda comida suficiente para os 10 dias de caminhada no mercado e a pus na mochila. Os primeiro três foram duríssimos, mas conforme ia consumindo os mantimentos, ia ficando mais leve. Toda a água do parque é potável e isso não vai ser um problema. Alguns produtos, como café, chocolate, biscoitos, atum, comprei por um preço muito melhor no Free Shop de Punta Arenas. O restante, no Hipermarc em Puerto Natales.

Porém, você não precisa fazer isso e carregar todo esse peso. Os campings pagos possuem um armazém com mantimentos básicos, como barras de cereal, biscoitos, enlatados e doces (que custam três vezes mais que no mercado, na cidade).

Levei 1kg de arroz, 1,5 kg de massa, quatro pacotes de molho para massa em pó, 1kg de bolachas doces, 500g de bolachas salgadas, 500g de chocolate, seis barras de cereal, 250g de leite em pó, 500g de cereal para o café da manhã, 500g de pão, 100g de salame, 400g de queijo, três latas de atum, café, alho e gengibre.

O que levar para vestir e demais itens

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Todos os campings pagos do parque alugam barracas, saco de dormir, colchonete ou possuem refúgios com cama  Já os grátis, administrados pela Conaf, não possuem estrutura alguma. Se a ideia é economizar, é indispensável ter barraca, saco de dormir com conforto de pelo menos 0º (de outubro a abril) e colchonete com isolante térmico, pois o aluguel pra mais de um dia não sai em conta.

Também é indispensável: botas para trekking; casaco impermeável, de preferência corta vento; dois casacos, de preferência de fleece, para usar embaixo do corta vento; uma calça impermeável; uma calça para inverno; gorro; luvas; protetor solar; fogareiro que utilize gás (os outros não são permitidos); panela; talheres; esqueiro ou fósforos, cantil; bastões de trekking (opcional); kit de primeiros socorros; embalagens para embalar a comida hermeticamente (para evitar que os ratos comam sua comida. Também é indicado amarrar os restos em uma árvore ou qualquer lugar que o mantenha suspenso; nunca dentro da barraca).

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Terceiro dia de trekking, passando pelo Glaciar los Perros

Quanto custa

O gasto total dos dez dias e nove noites foi de R$ 450, ou R$ 45 por dia. O valor inclui entrada para o parque, camping (havia um terceiro camping grátis, que não existe mais), passagem de ida e volta de ônibus e gastos com comida (no mercado de Puerto Natales e zona franca de Punta Arenas).

O trekking pelo circuito O e W

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Início pela Laguna Amarga

Os primeiros ônibus regulares chegam na portaria Laguna Amarga pelas 9h30. Até efetuar todo o registro, ganhar mapa, ver o vídeo de segurança do parque, já serão 10h30. Se você quiser ganhar tempo, pode tomar uma van, que custa CHL 3.000 (R$ 15) até o acampamento Torre Central. São 5km, ou quase uma hora e meia, que você vai poupar de caminhada.

Se o seu destino for o circuito O, precisa tomar, obrigatoriamente, a direção do camping Serón.

Para quem pretende fazer o circuito W: deixe as coisas no camping Torres Central e faça um ataque ao mirador Torres. Não vai ser um dia fácil: serão perto de oito horas de caminhada. Acampe no Torres Central e siga para o camping Los Cuernos, Francês ou Italiano (grátis) no segundo dia. Seria como fazer os últimos dias desse guia, mas ao contrário, voltando do último ao dia 6.

Início por Paine Grande (Catamarã)

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Indo de ônibus, você certamente chegará a tempo de tomar o catamarã que sai as 11h de Pudeto. A navegação dura meia hora e às 11h30 e estará em Paine Grande.

O pessoal do Circuito O terá, obrigatoriamente, que seguir para o camping Italino e, se possível, subir nesse primeiro dia para o Mirador Britânico, sem mochila ( para o dia 6 desse relato).

Quem quer fazer o circuito W, deve tomar o caminho do camping Grey. Eu aconselho passar a noite por lá mesmo, mas é possível deixar a mochila no camping Paine Grande e fazer um bate e volta por essa perna do trajeto (cerca de 7 horas de caminhada).

Se você vai para a patagônia, pode gostar dos nossos relatos sobre as trilhas de El Chalten, a Laguna Esmeralda, em Ushuaia e nosso trekking de seis dias pelo Parque Lanin, entre Junin e San Martin de los Andes.

Dia 1 – Da portaria Laguna Amarga ao camping Serón (18 km)

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Saída da portaria Laguna Amarga, no trecho que pode ser feito de van

Antigamente, havia uma trilha saindo da Laguna Amarga que ia direto para o camping Serón e encurtava o trajeto. Esse caminho está fechado, obrigando a ir quase até o camping Torres Central para tomar o caminho ao Serón. Se você decidir fizer o trecho desde a portaria até o Torres a pé, saiba que há uma trilha no pampa, afastada dos carros e menos extensa.

Entre os campings Torre Central e Serón, a primeira parte do percurso é em aclive, avançando dentro de um bosque onde a trilha se divide em várias. Esse foi um dos únicos trechos de todo o circuito com sinalização confusa, mas basta seguir sempre as trilhas em direção ao norte que não há como se perder. O caminho já vai estar um tanto tedioso quando se abrir no belo vale do rio Paine. Basta ir seguindo o caminho que costeia o rio e, e em cerca de uma hora, chega-se no camping Serón.

O camping possui uma boa estrutura, com ducha com água quente (somente dois banheiros) e mesas em um abrigo aberto para cozinhar.

Dia 2 – Do camping Serón ao camping Dickson (18 km)

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O camping Dickson, o mais belo do circuito O

Esse é um dos dias mais incríveis de todo circuito. Logo ao sair para caminhar, ainda ao lado do rio Paine, a trilha vai começar a levá-lo para cima, garantindo belas vistas do vale se o tempo estiver aberto. O aclive mais acentuado fica no local onde você começará a se afastar do Lago Paine e rio Paine, ainda na primeira hora de caminhada.

Há um posto de guarda-parques no caminho, onde vão checar se você tem reserva no camping Dickson. Nessa parte, dependendo de quem for o guarda-parque, a passagem não vai ser permitida sem a reserva.

A trilha segue por um pampa, em meio a nevados. Ao longe, pode-se ver o Glaciar Olvidado. Quase chegando ao camping, a trilha tem outro forte aclíve, que permite uma bela vista do rio Paine, o lago Dickson, o camping, as montanhas e o glacial.

Camping com boa estrutura, água quente para tomar banho (oito banheiros) e mesas ao ar livre para cozinhar. Há alguns espaços para barracas pequenas na beira do lago, na cara de um glacial. Mas não fique ali se estiver ventando muito.

Dia 3 – Do camping Dickson ao camping Los Perros (11,8 km)

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O Glaciar Los Perros

A primeira parte do dia será dentro de um bosque com algumas subidas mais puxadas. Não tive muita sorte e os dois miradores, quando passei, não mostravam muito, escondidos pela neblina. O caminho é, na maior parte, em aclive, mas nada muito duro após o início.

Faltando uns 20 minutos para chegar no camping, há um mirador para o Glaciar Los Peros. Vale a pena dar uma paradinha no mirador. A trilha vai seguir em declive até o camping, que tem uma estrutura mínima, com um pequeno armazém. Não há água quente nos chuveiros e só se pode cozinhar em um abrigo fechado.

Dia 4 – Do camping Los Peros ao Camping Paso (8 km)

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O passo Jhon Garner, ponto de maior altitude do trekking

Pela distância pode parecer um dia tranquilo, mas não se engane: serão 800 metros de aclive e 600 de declive. E muito, muito frio durante a noite acampando ao lado do Glaciar Grey e cruzando o passo. O dia começa em um úmido bosque de lengas patagônicas, certamente transformado em um atoleiro de barro. Depois vai abrir em um deserto de pedras, onde a trilha o levará pra cima. Levante a cabeça e preste atenção nos totens para não se perder.

Depois da surpresa do passo (se você for, vai entender) a trilha começa a descer, por uma escadaria de troncos, sempre com o glaciar Grey ao seu lado direito. Há algumas cordas para ajudar nas partes mais íngrimes. Se o solo estiver úmido, redobre a atenção.

O camping Paso é simples, sem armazém ou chuveiro. Há apenas um banheiro e a patente é um buraco no chão.

Dia 5 – Do camping Paso ao camping Grey (7 km)

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Outro dia com muito declive em que se deve ter cuidado em dias de chuva ou se o solo estiver úmido. Será necessário subir por duas escadarias de metal e cruzar duas pontes colgantes. A maior parte do caminho é por uma encosta, acompanhando o glacial Grey a sua direita. No camping, é possível contratar um trekking no glacial e navegar pelo lago até perto dele.

Junto com o Torres Central, é o camping mais frequentado do parque, ficando apinhado de barracas na alta temporada. São apenas duas duchas por sexo e funcionam apenas três horas por dia, de forma que uma fila pro banho é inevitável. Chegue cedo. Há armazém.

Dia 6 – Do camping Grey ao camping Italiano (18,5 km) – Aqui começa o circuito W

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Quem veio de catarã, seguiu, primeiro, até o Camping Grey e, certamente no dia seguinte, iniciar esse percurso aqui relatado. Quem está no circuito O, vai sentir a mochila bem mais leve nesse dia. Não há muito aclive e declive (há uma boa subidinha após o camping Paine Grande, nada que importe muito para quem está quase uma semana caminhando). Se preferir, é possível passar a noite no camping Paine Grande, que fica no meio do caminho.

Vale lembrar que agora você entrou no circuito W e verá muito mais gente nas trilhas. O percurso foi feito em pouco menos de sete horas e, sem dúvida, foi o dia mais bonito, com paisagens distintas. O camping Italiano é administrado pela Conaf, então não possui armazém nem chuveiros.

Dia 7 – Do camping Italiano ao camping Frances (12,8 km com ida e volta ao Mirador Britânico)

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A ideia nesse dia é levantar acampamento e deixar as mochilas no Italiano, para subir o vale Britânico sem peso nas costas. Isso já é uma tradição e são dezenas de mochilas que ficam encostadas perto da casa do guarda-parques. Pode-se economizar umas horas no próximo dia e ficar no camping Los Cuernos em vez do Fracês. Basta caminhar uns 40 minutos a mais.

No mais, o camping Francês tem a melhor estrutura entre os campings que fiquei, com armazém e muitos banheiros com água quente. Foi um dos últimos campings a ser construído, por isso está mais preparado para receber os visitantes.As barracas são armadas em estruturas de madeira e não presas ao chão. Se a sua utilizar estacas, não esqueça de cordas para amarrá-la.

Aqui, de forma alguma deixe comida dentro da barraca. Pendure-a em algum lugar. Um amigo que fazia o trekking comigo cometeu esse erro e os ratos roeram a parte interna da barraca para tentar entrar.

Dia 8 – Do camping Frances ao camping Torre Central (14,6 km, passando pelo camping Los Cuernos)

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Caminhada leve, feita em menos de cinco horas. Outra alternativa é subir direto para o camping Las Torres, que fica na base do mirador, pois há um atalho que corta o caminho alguns quilômetros, não sendo necessário ir até o camping Torre Central.

O camping Torre Central é o maior do parque e o mais procurado pelos visitantes. Possui oito chuveiros com água quente, sem restrição de horário, armazém e pode-se cozinhar em mesas ao ar livre.

Dia 9 – Ida e volta ao mirador Torres (19 km)

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A maioria dos visitantes que vem ao parque fazem esse caminho, então espere muita gente na trilha. O aclive e declive são bem acentuados, então não suba com suas coisas. Até a temporada 2016/2017, havia um camping a menos de uma hora do mirador, de forma que já era tradição subir até lá ainda noite e ver os primeiros raios de sol baterem e pintarem de vermelho as torres.

Na temporada 2017/2018, este camping foi fechado. O mais próximo é o camping Chileno, porém não é possível acampar com seu equipamento, apenas em barracas já montadas por eles em plataformas, que são bem caras.

Quando a subida, tenha cuidado apenas em alguns pontos com mais vento e não se preocupe com a água, há bastante em todo o caminho.

Dia 10 – Do camping Las Torres a portaria Laguna Amarga (5km)

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Uma hora de caminhada até a portaria Laguna Amarga. Se você estiver muito cansado, perto do horário de saída dos ônibus (14h), é possível tomar uma van (CHL 3.000 ou R$ 15) do camping até a portaria.

 

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